terça-feira, 2 de agosto de 2016

E a tourada continua…

Um senhor chamado Francisco d’Orey, na página do facebook da Acção Directa, respondeu a uma convocatória para um protesto anti-tourada realizado no dia 28 de Julho com, entre várias outras, as seguintes preciosidades:
“Cambada de ignorantes comecem a contar as vacas galinhas e porcos que comem e são torturados a vida toda e acabam na vossa barriga. Depois vão ver como vivem os touros e os cavalos. No fim vejam como fica um touro que volta ao campo depois duma corrida e quando ainda não perceberem o lixo que vos vai na cabeça vai investigar sobre o que passam os anjmais uma vida inteira no zoo onde se passeiam com os vossos filhos etc. já agora como andam os vossos caezinhos lulus em casa deprimidos por estarem sozinhos horas à espera do dono”
“Tauromaquia: a indústria responsável pela vida feliz dum dos animais mais protegidos em Portugal”
“De acordo com os estudos científicos mais recentes sobre o touro bravo, sabemos que este tem reações hormonais únicas no reino animal. Sabemos, por exemplo, que este tem um hipotálamo (parte do cérebro que sintetiza as neurohormonas encarregues, nomeadamente, da regulação das funções de stress ou de defesa), 20% superior ao de todos os outros bovinos, e que, por isso, tem uma capacidade superior de segregação de beta-endorfinas (hormona e anestesiaste natural encarregada de bloquear os receptores da dor) o que faz com que o touro perante a colocação de uma bandarilha redobre as suas investidas em vez de fugir, que é a reação natural de qualquer animal à dor. O touro é selecionado tendo em conta a sua combatividade, sendo um animal que tem evoluído, ao longo dos séculos, estando fisiologicamente adaptado para a lide”.
Achei por bem responder ao último trecho, resposta que aqui transcrevo:
Excelentíssimo Senhor,
Passei aqui pela página da Acção Directa e, com perplexidade, li os seus comentários.
Devo dizer-lhe que hesitei bastante em responder-lhe, e hesitei por três razões:
1. O senhor é ordinário e mal educado; estes traços de personalidade impossibilitam qualquer debate sério e honesto; claro que será certamente um problema da sua história de vida, provavelmente de alguém que durante a sua ontogenia foi acossado e mal-tratado, eventualmente fruto de um meio descompensado mas, enfim, esses problemas hoje em dia têm tratamento e aconselho-o a procurá-lo.
2. O senhor é arrogante e utiliza argumentos ad hominem, o que é epistemologicamente inaceitável no debate científico.
3. O senhor é intelectualmente desonesto e cientificamente ignorante; passo a explicar. É intelectualmente desonesto porque refere dados cientificamente inconsistentes; ou consegue dizer-me, em que publicação avalizada pela Web of Knowledge submetida a peer review por um conjunto fidedigno de referees (única forma aceite pela comunidade científica de homologação de resultados e, mesmo assim, sujeitos a contraditório) encontrou esses resultados? Diga-me porque o saber não ocupa lugar e eu estou sempre disposto a aprender.
Claro que sei que o texto que o senhor tem o desplante de assinar não é seu.
De qualquer forma, porque pode alguém acreditar em si, cá vai resposta:
(se não compreender algum vocábulo diga, terei muito gosto em explicar)
Como é que o senhor actuou?
Depois do seu comentário ordinário e de explícita falta de educação, vai à página "O TOURO - Tudo o que precisa saber sobre o Touro Bravo", de onde, de forma acrítica porque apenas serve os seus interesses, e de forma desonesta porque não cita a fonte, faz um copy-paste do texto como se fosse seu. Aliás a sua cópia é de tal maneira acrítica que nem sequer se apercebeu dos erros de ortografia no original.
Portanto, a partir daqui, a minha conversa passa a ser com a douta fonte que o senhor desonestamente copiou sem citar.
Tanto quanto sei, nunca nenhuma revista científica credível aceitou publicar o manuscrito dos indivíduos do Departmento de Fisiologia da Faculdade de Ciência Veterinária da Universidade Complutense de Madrid, manuscrito no qual se baseia o texto que o senhor copiou.
O texto que o senhor copiou começa por referir uma hipertelia intracefálica ao nível do infundíbulo do terceiro ventrículo.
Pergunte aos autores onde leram tal coisa? Qual a base amostral? Fundamenta-se num nível alfa inferior a 0,05? Esclareça-me.
Mais, eles que demonstrem que as hipertelias estruturais têm consequências metabólicas. Se mo demonstrarem proporei à Academia de Estocolmo que lhes seja atribuído o Prémio Nobel.
Continuando.
A beta-endorfina que é um polipéptido de cadeia curta (31 aminoácidos) é produzida não só ao nível hipotalâmico, mas também ao nível hipofisário e noutras zonas. Aliás ela foi descoberta em 1976 ao nível hipofisário e não ao nível hipotalâmico. Os autores da descoberta foram Choh Hao Li e David Chung. O seu a seu dono!
Um dos erros formais do texto que o senhor copiou é a afirmação de que algo no organismo está encarregue de alguma coisa. É um raciocínio teleológico aceite em religião mas inaceitável no discurso científico. Não está “encarregue” mas “tem por consequência”, o que é totalmente diferente. A teleologia demonstra uma ignorância avassaladora sobre os processos evolutivos.
Uma das principais inconsistências do manuscrito no qual se baseia o texto que o senhor copiou e que leva ao seu “chumbo” pela comunidade científica, é afirmar que o touro, uma vez lidado (ou seja, já cadáver) apresenta níveis de cortisol (hormona do stress) inferiores aos que apresenta um touro transportado num camião, deduzindo os autores que o touro sofre mais no camião do que durante a tourada. Erro crasso. Falam de touros durante a tourada, mas a maior parte dos touros estavam mortos durante a extracção do sangue. Um estudo que se realiza no cadáver de um animal não nos diz rigorosamente nada sobre o que se passava quando o animal estava vivo.
Outro disparate vem logo na frase seguinte: “o touro perante a colocação de uma bandarilha redobre as suas investidas em vez de fugir, que é a reação natural de qualquer animal à dor”.
Não, meu caro, em qualquer animal a reacção é a fuga se tiver condições para isso.
Se estiver encurralado como o touro na arena, portanto se não tiver condições de fuga, só tem duas alternativas: ou luta ou fica estático.
Nesta situação o animal avalia o inimigo. Se considera que tem condições para vencer, luta. Se considera que não tem, inibe a acção e fica estático.
O que é que o leva a lutar? É activado um conjunto de feixes nervosos denominado “sistema periventricular” que o leva a lutar.
O sistema periventricular é constituído por vias eferentes hipotalâmicas (na parede do terceiro ventrículo) que atingem principalmente os núcleos supra-ópticos posterior e tuberal e confinam com a substância cinzenta periventricular.
Uma das consequências da activação do sistema periventricular (atenção, só há estudos em humanos) é a produção do neuropéptido-y que, ao que tudo indica, pode estar associado à resiliência em relação ao stress pós-traumático e à resposta de medo, permitindo aos indivíduos uma melhor resposta sob stress extremo (Julie Steenhuysen, 2009).
E o que é que leva a inibir a acção?
Os poucos estudos conhecidos levados a cabo pela equipa de Laborit (1974, 1977) foram realizados em ratos. Em situações em que não pode lutar nem fugir é activado um conjunto de feixes nervosos denominado “sistema inibidor de acção” (área septal média, hipocampus, amígdala lateral e hipotálamo ventromediano).
Tanto quanto sei são desconhecidos os mecanismos neuroquímicos envolvidos, apesar de existirem algumas conjecturas sobre isso.
Bom, e vamos discutir um pouquinho o valor de sobrevivência da inibição dos centros de dor.
Antes de mais a dor tem um imenso valor de sobrevivência. Se não houvesse dor o animal não se aperceberia da gravidade dos seus ferimentos e morreria.
Assim, ao longo do processo evolutivo, foi seleccionada a capacidade de produção de endorfinas. Esta anestesia endógena é de curta duração e é uma atenuação e não uma eliminação da dor (não existe um único estudo que refira “eliminação”).
Os neuropeptídos que constituem as endorfinas são neuropéptidos de vida curta (short-term). Permitem ao animal, num curto período após o trauma, a serenidade necessária à organização de uma resposta adequada à situação.
Dou-lhe um exemplo humano. O senhor está a cortar pão e a faca resvala cortando-lhe um dedo. É muito doloroso. Mas, após algumas fracções de segundo, o seu sistema nervoso responde com a produção de endorfinas. A sua dor é significativamente atenuada. Pensa, vai desinfectar a ferida, decide ir ao hospital para a suturar, etc..
Se tivesse uma dor insuportável não teria a serenidade necessária para encontrar uma solução. As endorfinas permitem-lhe essa serenidade por um curto período mas, passado pouco tempo, vai sentir imensa dor. Contudo o problema está resolvido e sobreviveu. Mas as endorfinas são de vida curta. Apenas lhe dão tempo para resolver o problema, e muito pouco tempo.
Quando uma gazela é caçada por uma leoa, o seu sistema neuro-endócrino produz endorfinas. A dor diminui à espera de uma solução para o problema. Diz-se que a gazela sofre pouco. Mas isso será porque a morte é suficientemente rápida, mais rápida que o tempo de vida das endorfinas produzidas.
O período de lide de um touro na arena é demasiado longo. Não há endorfina que persista durante todo o tempo da lide.
E vamos agora ao resto, à lide.
As bandarilhas? Em Portugal espetadas ou a cavalo, ou a pé.
Para quem não sabe, são varas de madeira com uma ponta de aço de 6 cm que se prendem à área dorsal do touro e que aí se mantêm pelo facto de, na sua ponta, possuirem um arpão de 16 mm.
Existem ainda o matador e os forcados. O matador faz uma série de passes com a capa e também espeta bandarilhas no animal.
Os forcados desafiam o touro e, em grupo, agarram-no toldando-lhe a visão e tentando imobilizá-lo.
Nesta parte poderá não ser causada dor física ao animal, embora lhe seja imposto um enorme esforço físico e psicológico.
As bandarilhas, pela força da gravidade e do movimento do touro, causam danos aos nervos, músculos e vasos sanguíneos.
No caso dos danos causados nos vasos sanguínios, é significativamente reduzida a irrigação sanguínea dos músculos importantes para o movimento.
Além do mais, as bandarilhas podem ferir os ramos nervosos dorsais da medula espinal, o que causa claudicação temporária e leva à inibição reflexa do plexo braquial (o centro nervoso que inerva as extremidades anteriores). Podem ainda causar hemorragias no canal medular e ferir a parte superior das costelas.
Portanto, o sistema nervoso do touro sofre danos significativos durante a tourada, tornando uma resposta normal impossível em termos de libertação de ACTH e cortisol.
O estudo no qual se baseia o texto que o senhor copiou conclui, entre outras coisas sem qualquer fundamento científico credível, que os touros que só tenham sido transportados ou que estão na arena sem ser toreados, portanto sem danos físicos, produzem mais cortisol do que aqueles que sofreram danos. Portanto é maior o stress de não ser toureado do que o de ser toureado. Fantasticamente ilógico!!!
O que se passa na realidade é que o seu sistema nervoso está intacto, o que é essencial para a resposta hormonal.
José Laguía, membro do Colégio Oficial de Veterinários de Espanha refere que em pessoas envolvidas em acidentes com grandes lesões na coluna vertebral, a resposta hormonal que resultaria na liberação de cortisol é reduzida ou mesmo ausente? Pode haver alguma situação mais stressante para alguém do que pensar que poderá passar o resto da vida numa cadeira de rodas?
É que o que se passa na realidade é que o sistema nervoso está de tal modo danificado que se torna impossível a resposta adequada.
A outra parte do estudo dos indivíduos do Departmento de Fisiologia da Faculdade de Ciência Veterinária da Universidade Complutense de Madrid refere-se à produção de beta-endorfina que, como referi atrás, é produzida em situações de dor.
Segundo esses senhores, durante a tourada, o animal, aparentemente, liberta uma enorme quantidade de beta-endorfina. Então os ditos senhores concluem que neste caso a beta-endorfina seria capaz de evitar a dor do touro.
Dizem esses senhores que o touro liberta dez vezes a quantidade de beta-endorfina do que um ser humano. Fantástico!
Para o mínimo de credibilidade científica desta afirmação, os ditos seres humanos, para que o estudo comparativo fosse fidedigno, teriam que estar sujeitos rigorosamente às mesmas condições que o touro. É o controlo de variáveis – chama-se método científico.
Portanto o ser humano teria que ser toureado, bandarilhado, pegado, etc..
Tanto quanto sabemos isso não foi feito e portanto as conclusões não têm qualquer validade.
Ainda por cima, como já referi, os níveis hormonais foram medidos no sangue recolhido em touros mortos, por isso é impossível saber em que altura da tourada a beta-endorfina foi libertada.
Numa crítica ao manuscrito dos senhores da Universidade Complutense de Madrid, o atrás referido José Laguía defende que a resposta hormonal depende da “integridade das estruturas nervosas, pois sabe-se que, quando há um dano neurológico, a beta-endorfina pode ser libertada no local da dor, devido a determinados mecanismos celulares, sem o envolvimento do sistema nervoso. (…) quando a agressão é repetida frequentemente ou tem lugar durante um período prolongado de tempo, e quando os recursos do animal para alcançar o nível de adaptação são inadequados (…) as respostas hormonais à dor, ou seja, a liberação de grandes quantidades de beta-endorfina tais como são encontradas no sangue de touros após uma tourada, são a resposta normal do organismo a grande dor e stress, e têm muito pouco a ver com capacidade para os neutralizar; Na verdade, ao contrário, os níveis de hormona indicam o grau de dor experimentada e não a capacidade do animal para a neutralizar”.
Quanto à incongruência da fase final do texto que o senhor copiou: “O touro é selecionado tendo em conta a sua combatividade, sendo um animal que tem evoluído, ao longo dos séculos, estando fisiologicamente adaptado para a lide” talvez noutro dia a desmonte, mas este meu comentário já vai longo e a paciência já me vai faltando.

Cumprimentos.


Texto da autoria do Professor Luis Vicente
(link da publicação)

terça-feira, 26 de julho de 2016

O Negócio das praças de Touros

A realidade da tauromaquia na região num périplo pelas praças de touros, onde há mais prejuízo do que lucro. A rentabilidade das corridas está longe dos seus tempos áureos, também por culpa da crise.
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Sílvia Agostinho25-07-2016 às 20:06
O empresário Rafael Vilhais pegou na praça de Touros de Salvaterra de Magos há escassos meses. Natural de Samora Correia diz que foi quase obrigado a ficar com a praça de Salvaterra, propriedade da Santa Casa da Misericórdia local. Muitas direções e empresários têm passado pelo espaço, mas sem sucesso, e com muita polémica à mistura. A praça de Salvaterra não é das mais fáceis. Chama algum público mas não tem o estatuto do Campo Pequeno ou da Palha Blanco em Vila Franca de Xira. Rafael Vilhais quer contrariar essa tese, e por isso vai apostar forte na vinda de um dos toureiros sensação em todo o mundo na corrida de 29 de julho, o peruano Andrés Roca Rey.

Centenária, esta praça é já de si icónica por ter sido realizada ali a última corrida real. O seu estado de conservação é aceitável para os anos que tem, contudo o empresário salienta que quando chegou teve de fazer obras, principalmente algumas pinturas.

Também gestor das praças de Beja e das Caldas da Rainha, refere que não estava nos seus planos o equipamento salvaterrense. “A Misericórdia é que me empurrou para este projeto porque esta praça teve uma má gestão, e outros que por cá passaram não fizeram um bom trabalho sem dúvida nenhuma”, atira. A praça de Salvaterra já cumpre o decreto - lei de 89/2014 que obriga este tipo de equipamentos a adaptarem-se a uma legislação ainda mais apertada, nomeadamente, com a instalação de curros devidamente adaptados. “Essas obras foram realizadas pela Santa Casa, sou apenas inquilino”, refere salientando ainda “a relação salutar com a entidade proprietária”.

“Uma das coisas que me pedem é que honre os meus compromissos com os artistas, com os toureiros, e até bombeiros e coletividades, que foi algo que nem sempre se teve em linha de conta”, aponta para se referir ao facto de no passado alguns dos artistas terem ficado sem receber o cachet acordado. “As várias administrações, que não a Santa Casa, queimaram a praça de touros”, alude. Para Rafael Vilhais, o equipamento tem boas condições “temos é de atrair bons artistas para trazer pessoas à praça”. A praça de Salvaterra tem uma lotação para 3400 pessoas, “o desejável seriam 4 mil lugares”. Com as novas exigências legais o equipamento teve de sofrer obras e reduzir o número de lugares. Nesta praça, e com uma lotação esgotada o empresário acredita que consiga faturar cerca de 75 a 80 mil euros por corrida, sendo que o lucro é sempre relativo. No caso da corrida de 29 de julho, e tendo como cabeça de cartaz um dos nomes do momento, uma fatia considerável do que se angariar será para pagar ao novo fenómeno do toureio apeado. 

Tal como em outras localidades ribatejanas, a afición de Salvaterra pede para que os artistas da terra também sejam incluídos nos cartéis das corridas que se vão organizando. Ana Baptista é o nome mais sonante da terra, e Rafael Vilhais acha que com todo o direito – “Uma é coisa é pedirem para que pessoas que não têm qualidade sejam convidadas; outra coisa é a Ana Baptista que anda bastante bem e que merece integrar o cartel”, e por isso é um dos nomes destacados para a corrida de 29 de julho. “Estou muito confiante que a praça vai esgotar nesse dia, principalmente devido ao Roca Rey. Disso não tenho dúvidas”.
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Rafael Vilhais aposta forte no sucesso da corrida de 29 de julho
As cunhas e as ditas “trocas” de artistas entre os empresários do mundo taurino é o que na opinião de alguns críticos ouvidos pelo Valor Local tem prejudicado o crescimento da arte no país e na região. São sempre os mesmos a aparecerem. Poucos artistas novos conseguem singrar. E se quisermos ir mais além e de uma forma mais perversa há também quem pague para andar na ribalta porque as famílias têm dinheiro. Rafael Vilhais assume que parte do quadro descrito acontece e até usa a expressão “colmeia” para se referir às ditas trocas. “Isso não é bom, mas acontece. Eu sou apoderado, e coloco os meus artistas em determinada corrida, e outro empresário faz o mesmo”, assume, mas defende-se: “Pode haver quem não tenha talento para figurar em determinados cartéis mas o que se passa efetivamente é que ainda não apareceu aquela figura que se destaca acima de todas outras. Quando isso acontecer vai triunfar. Andam aí filhos de toureiros que ainda não provaram que são melhores do que os pais. De uma forma ou de outra todos os que conheço tiveram oportunidades mas uns souberam agarrar e outros não”. E conclui – “Pode haver trocas e baldrocas mas certo é que se vive uma crise de novos toureiros”.

A praça de touros de Salvaterra que tem passado, de acordo com os seus responsáveis, por gestões difíceis procura agora uma nova fase da sua existência. A aposta forte no espetáculo agendado para o fim do mês será uma prova de fogo para o empresário. A Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra, através do seu diretor José António Luís também está confiante no futuro e não esconde que as expetativas neste momento “são enormes” quanto ao que se espera venha a ser uma gestão de sucesso do equipamento. A venda deste património nunca esteve em cima da mesa. Quer a entidade proprietária quer o empresário recusaram-se a dar, ao nosso jornal, o valor da renda que Rafael Vilhais tem de pagar mensal ou anualmente à Santa Casa. Esta entidade limita-se a dizer que está satisfeita com o acordo obtido.

​​Nos seus planos para esta praça, Rafael Vilhais conta que espera realizar duas grandes corridas por ano, e mais uma novilhada, apostando na qualidade, em detrimento da quantidade, “até porque o momento económico do país ainda não permite que se possa ir mais além”. Atualmente, o empresário cobra no mínimo 15 euros de entrada na praça de Salvaterra, e ao contrário de alguns críticos tauromáquicos e empresários do ramo, não defende uma baixa de preços, “porque estamos a falar de um espetáculo que ainda custa o seu dinheiro, e se formos a ver não temos aquele acréscimo de público tão espetacular como se pensa se colocarmos o bilhete a cinco euros”. “Dessa forma estaríamos a retirar categoria ao espetáculo. Quanto muito podemos ter um setor com bilhetes mais baratos”, opina.

Natural do concelho vizinho, Rafael Vilhais diz ter o sonho de um dia ainda se poder construir uma praça em alvenaria na localidade de Samora Correia, onde a afición é muita, “com um bairrismo parecido com o de Azambuja”. “Esteve para avançar, mas como entretanto deixou de haver ajudas comunitárias, perdeu-se essa ideia, mas ainda não perdi a esperança”.
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foto Hélder Dias
ImagemO empresário fala de uma afición difícil
​ Empresário da Palha Blanco:
“Público de Vila Franca é o mais exigente do país”

O empresário Paulo Pessoa de Carvalho gere a praça de Vila Franca de Xira desde 2015. Sendo possível que se mantenha até 2017 se for vontade do empresário e da entidade proprietária- a Santa Casa da Misericórdia local. “Esta é uma relação que tem estado a correr bem. Sabemos que não podemos entrar em loucuras porque em termos económicos as pessoas já não aderem tanto à tourada. Tentam conter-se o mais possível”.

Este empresário não poupa nos elogios ao profissionalismo da entidade proprietária, nomeadamente, “no brio que tem” no que concerne às condições do equipamento, cuja cereja no topo do bolo é a enfermaria que tem à frente o cirurgião Luís Ramos, “um dos melhores médicos da Península Ibérica”, dotada de “condições excelentes”. “A praça de touros é cuidada de forma exímia pela Santa Casa” que naturalmente já se encontra adaptada à nova lei. O empresário que também gere as praças de Almeirim e da Chamusca, igualmente detidas pelas santas casas locais, não tem dúvidas em salientar que prefere gerir equipamentos desta natureza não pertencentes a Câmaras, “onde por vezes se anda ao sabor dos diferentes partidos, e dos seus interesses”. “Nas instituições como as santas casas, mesmo que a direção mude, a filosofia de gestão não se altera muito, é mais institucional, e as regras não mudam. A gestão é mais pura e dura”.

No que se refere aos lucros, “não são os desejáveis nem para mim nem para a Santa Casa. Estamos sempre aquém. Mas posso dizer que as coisas não estão a correr mal face às minhas expetativas”. O empresário, a par do de Azambuja, foi o único neste trabalho que não teve problemas em avançar com o valor da renda que todos os anos entrega à Santa Casa: 17 mil euros mais Iva.

O empresário das Caldas da Rainha refere que encontrou um público difícil em Vila Franca, muito opinativo e crítico, que nem sempre vai às corridas. “Percebemos que as pessoas escolhem muito bem as praças onde querem ir. Por outro lado, a conjuntura nacional também nos afeta”. Vender os preços dos bilhetes a preços mais económicos, na ordem dos cinco euros, como alguns defendem não é visto como solução, “visto não se traduzir como mais compensatório”. O valor mínimo cobrado em Vila Franca é de 12,5 euros. Com praça esgotada, consegue no máximo chegar a uma faturação a rondar os 90 mil euros.

Para Paulo Pessoa de Carvalho, a praça de Vila Franca é um desafio, “porque foi sempre uma praça séria. A empresa que esteve antes de mim fez ali um bom trabalho”. Por outro lado, o desafio é também a afición que lhe é inerente: “a mais exigente de Portugal, e isso nem sempre se traduz em público”. Nestas duas temporadas que leva de Palha Blanco, o empresário desabafa- “Ali já tive alegrias, sofri e transpirei. Já me trataram mal, e dirigiram-me impropérios. E algumas vezes tive que me calar, encolher os ombros, e ouvir com a maior das descontrações”. As críticas normalmente vão desde “a má apresentação do touro até ao desempenho dos artistas”. “Em Vila Franca qualquer coisa serve para ralharem connosco, quando tudo corre bem, e não nos dizem nada, então é sinal que correu mesmo tudo bem”.

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foto Ricardo Caetano
​A Palha Blanco tem uma lotação de 3500 lugares, com quatro corridas principais por ano, duas no Colete Encarnado e duas na Feira de Outubro. Um dos itens do caderno de encargos do contrato com a Santa Casa constam as corridas com toureio a pé em que a cidade tem tradição. “Por vezes não é fácil encontrar nomes, mas faz parte e isso significa defender as raízes da terra”. Neste aspeto há que contratar fora do país: “Comercialmente o toureio a pé não funciona. Apenas com nomes espanhóis. O toureio ficou órfão de Pedrito de Portugal que de facto tinha uma mística, mas ainda assim não tinha o toureio profundo dos espanhóis”.

Questionado sobre a dificuldade de se ser empresário neste meio, garante que já pensou muitas vezes em desistir, até porque o setor é pouco unido. “Cada vez que nós trabalhamos, e nos pomos empenhadamente a fazer as coisas, esperamos o mínimo de retorno financeiro,  mas muitas vezes no final temos de ir inventar dinheiro onde ele não há. Só mesmo um maluco é que paga para trabalhar”. Por outro lado, “há empresários que estão neste meio, porque acham piada, por brincadeira, e este é mundo muito difícil”.

A rentabilidade das praças de touros também pode passar por outro género de espetáculos, nomeadamente, musicais. Esta foi uma vertente que explorou enquanto esteve à frente da praça das Caldas. No caso da Palha Blanco vai receber em breve um espetáculo de José Cid.

Já no que às ditas “trocas”, refere que há cavaleiros melhores e piores, “mas nas bilheteiras valem todos o mesmo”. “Um cavaleiro tem todo o direito de pedir sete ou mil euros, mas a verdade é que esse toureiro, normalmente, vale quase tanto como um que vá lá por mil”. Como não há um nome sonante, “isso torna tudo mais difícil”. As “trocas” são algo “que limita bastante o trabalho. “Esta moda dos empresários apoderados tem sido algo complicado, em que essa pessoa só compra o meu toureiro se eu comprar o dele”. “Trata-se de uma grande promiscuidade, que é difícil para o empresário”, não tem dúvidas. No seu caso não é apoderado atualmente de nenhum toureiro. Paulo Pessoa de Carvalho não considera que esta forma de estar nos bastidores das touradas seja limitativa do aparecimento de novos valores, “porque quem tem de romper, rompe!”, mas não deixa de ser verdade “que muitas jovens figuras vão aparecendo não tanto pelo seu talento, mas por circunstâncias económicas que geram essas oportunidades”. E ilustra o quadro – “Por vezes esse toureiro não é grande coisa e anda-se ali numa grande mentira, com o apoderado a tecer elogios que não têm nada a ver”. “Antes as pessoas apareciam claramente por mérito, mas hoje desvirtuou-se essa realidade, que no fim de contas descredibiliza a festa”. Por outro lado, alguns toureiros “recusam-se a pegar touros mais imprevisíveis como os da ganadaria Palha”, ilustra para definir a crise de talento e empenho.

A nova lei que regula a atividade taurina no entender do empresário enferma de um grave problema tendo em conta que na sua feitura, o anterior Governo decidiu ouvir os movimentos antitaurinos, “o que não faz sentido”. “Não quer dizer que quem não goste da atividade taurina não possa opinar sobre a regulamentação da atividade, pois pode ter uma palavra a dizer pela sua experiência, o que não pode acontecer é que que quem queira matar a atividade tenha o direito de vir dizer alguma coisa”.

 
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Azambuja: A praça Maldita

Inaugurada em 2011, a nova praça de touros de Azambuja ainda hoje dá que falar. Fruto de uma opção política do anterior presidente da Câmara contestada politicamente e pela população tendo em conta que foi preterida a remodelação das piscinas a favor da construção da praça, que apenas recebe uma corrida por ano, e que apesar de ter uma lotação modesta para 2000 lugares não chega a encher.

O empresário que se encontra a gerir a praça de Azambuja desde há dois anos, José Luís Zambujeiro não esconde que se encontra desolado com a forma como está a correr esta experiência. Apesar de apenas pagar uma renda anual de dois mil euros à Câmara, que por sua vez a canaliza para a Poisada do Campino que funciona como intermediário nesta gestão, o empresário diz que tal verba já faz mossa tendo em conta a fraca rentabilidade do equipamento.

“Tenho montado uns cartéis fortes com touros a sério, mas que não se traduz nas bilheteiras. Azambuja tem muita afición mas de boca”. O empresário não nega que acabou por ser um pouco iludido pelo clima vibrante que se vive nas largadas da Feira de Maio em que a adesão da população enche o olho, mas “essa afición não é transportada para o interior da praça de touros”.

No primeiro ano em Azambuja, José Luís Zambujeiro fez uma corrida e uma novilhada no final da época, “sem conseguir esgotar a praça” e diz mesmo que se conseguisse pelo menos encher três quartos da praça na Feira de Maio já ficava contente. O máximo que se consegue vender nesta praça são mil bilhetes. Na Feira de Maio de 2016, “a bilheteira continuou a revelar-se como escassa”, e como tal “é complicado pagarmos as despesas inerentes à corrida”. “Houve prejuízo”, desabafa.

Em Azambuja, o público considera que um bilhete de 15 euros, “é demasiado caro, quando no fundo é aceitável e normal para uma corrida de touros”. “Tenho pena que assim seja”. Refere que a estratégia não pode passar por preços mais baratos, porque os lugares na praça são poucos, e montar uma corrida em Azambuja custa à volta de 30 mil euros. “Com cinco euros podíamos esgotar duas praças em Azambuja que não dava para pagarmos os custos”.

Ano após ano vem à baila o facto de a corrida da Feira de Maio não incluir as figuras da terra, pedidas pela população, nomeadamente o nome de Ana Rita, mas neste aspeto o empresário reforça que a cavaleira toureia muito pouco, e principalmente em Espanha.

Muito falada tem sido a questão de se rentabilizar esta praça com outro género de espetáculos. Já aconteceram alguns concertos mas levados a efeito pela Poisada do Campino “que no fundo gere a praça”. Esta é uma área que o empresário não domina. Zambujeiro que já foi forcado lamenta a fraca rentabilidade da praça de Azambuja, “apesar de ter uma relação belíssima com todos os intervenientes desde a Câmara à Poisada do Campino”.

Por tudo isto, ainda se encontra a ponderar se quer ficar ou não com a praça para o ano. “O grande problema é que durante muitos anos a Câmara ofereceu bilhetes às pessoas e essa cultura de se ir ver touradas a custo zero ainda se encontra instalada”. Como os tempos hoje são outros e a autarquia não pode assumir esse custo, a festa  em Azambuja é uma sombra do que foi.

Também outros empresários ouvidos nesta reportagem que estiveram à frente da gestão das corridas da praça de Azambuja falam da dificuldade em obter boas bilheteiras neste equipamento. Paulo Pessoa de Carvalho refere que as condições físicas da praça são simpáticas, mas prejuízo rima mesmo com Azambuja. “A experiência não foi motivadora, o público não aderiu, apesar de o caderno de encargos da Câmara ser acessível”. Já a relação com a Poisada do Campino “não foi boa nem má, foi só uma relação”, refere o empresário sem querer entrar em mais detalhes.

Ouvido pela nossa reportagem, o presidente da Câmara, Luís de Sousa, refere que está preocupado com a fraca rentabilidade e aproveitamento, alegando mesmo que quando alguma coletividade lhe pede um espaço para fazer determinado evento, oferece como primeira sugestão a praça de touros. “Contudo não tem havido muita recetividade”.
Luís de Sousa não hesita em dizer que o empresário “já se lamentou bastante”, até porque “perdeu ali bastante dinheiro”, simplesmente “porque as pessoas não aderem”.

A gestão da Poisada do Campino tem sido questionada ao longo dos anos, e por vezes imbuída de alguma polémica. Neste aspeto, o presidente da Câmara refere que a atividade da associação “é monitorizada”. “Têm de nos apresentar relatórios e só a partir daí é que lhes atribuímos os subsídios”.
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Empresário de Arruda também fala da crise de novos valores
ImagemObras exteriores em curso
Praça de Arruda grita urgentemente por obras

​O ganadero e empresário Jorge de Carvalho tem explorado a praça de touros de Arruda nos últimos anos através do Clube Tauromáquico Arrudense do qual é presidente. O contrato com a Câmara que é a proprietária termina em 2017. Neste momento, a praça está em obras exteriores e segundo o empresário não necessita de se adequar ao novo regulamento do espetáculo tauromáquico por se enquadrar como praça de terceira.

Contudo Jorge de Carvalho não tem dúvidas de que necessitaria de “uma grande remodelação interior”. A praça leva duas mil pessoas. “Não é muito confortável e os curros estão a necessitar de uma completa transformação”. Segundo o empresário seria possível aumentar a lotação para quatro mil lugares, contudo não esconde que a Câmara não tem meios para o fazer atualmente e a afición de Arruda também não justifica. “Só com quatro mil lugares é que consegue esgotar uma praça. Só nestes casos é que é possível trazer um Ventura ou um Hermoso, atraindo público dos vários concelhos”. Com dois mil lugares apenas se vai lá com cartéis mais modestos, “e sem viabilidade”.

Em tempos mais favoráveis houve um projeto para ampliação da praça, “mas com a implantação do quartel da GNR que era para ser só provisório mesmo encostado ao equipamento” esse sonho acabou por ficar pelo caminho. “Queríamos que aí ficasse um apoio à tertúlia e à praça mas isso foi comprometido”.

Para o empresário de Arruda dos Vinhos, o futuro da praça de Arruda passará também pela realização de pequenos espetáculos tauromáquicos. Estando agendada uma parceria com a Câmara de Arruda para algumas iniciativas durante as festas. O empresário já fez seis corridas na praça por ano, mas este ano fará apenas uma corrida e uma novilhada. Jorge de Carvalho prefere não adiantar qual o valor máximo de bilheteira, mas no mínimo os seus bilhetes rondam os 15 a 20 euros. Apesar das poucas condições da praça, gosta de apostar em nomes mais sonantes, “porque se formos por toureiros de pouca monta as pessoas não aderem”.

Quando se fala em crise de valores no mundo da tauromaquia a nível dos cartéis, o empresário tem uma opinião muito vincada – “O problema é que certos cavaleiros se recusam a tourear os animais na sua plenitude. Primeiro metem lá os seus bandarilheiros que vão deixando o animal cada vez mais cansado, facilitando a lide dos toureiros, e isso vai fazendo com que as pessoas se desliguem das touradas e com razão”.

O presidente da Câmara Municipal, André Rijo, está consciente das dificuldades desta praça, e como tal o empresário não tem de pagar qualquer renda ao município, questão sobre a qual o mesmo não se quis comprometer aquando da nossa reportagem. Em 2014/2015 a renda foi de 500 euros. “Já tive muitos prejuízos com esta praça”, alega o empresário.
O equipamento não tem algumas condições básicas como casas de banho, recorrendo-se a casas de banho móveis em altura de corridas. Sendo certo que a praça de Arruda grita urgentemente por obras, a Câmara operou algumas intervenções nos curros e nas enfermarias, a par do embelezamento exterior de que está a ser alvo.

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Muita prata da casa na gestão da Praça do Cartaxo

A Câmara Municipal do Cartaxo entregou a gestão da praça de touros local, este ano, ao Grupo de Forcados do Cartaxo, depois de o equipamento ter estado nas mãos de outra coletividade do concelho, “As Gentes do Cartaxo” que por opção não quis ficar com a praça. O vice-presidente dos forcados, Fábio Beijinho, refere que o grupo tem apostado em diversos espetáculos que incluem não só as típicas corridas mas outros eventos que de alguma forma tentam ir ao encontro dos gostos da afición, como convívios taurinos.

A praça do Cartaxo também se encontra em fase de adaptação à nova lei cujo prazo termina em agosto. No total são quatro mil euros que o município se prepara para investir no local, e que face aos constrangimentos financeiros da autarquia se trata mais uma vez de um investimento que não deixará de ser difícil para o município. A jaula de embolação vai ter de ser substituída. A Câmara estará a tentar embaratecer custos recorrendo a mão-de-obra da própria autarquia.

O grupo de forcados do Cartaxo possui uma parceria com um empresário que ajuda na colocação dos cartéis na praça cartaxeira, e não esconde que a tarefa de gestão do equipamento não deixa de ser um desafio para os mesmos. Desde pinturas a pequenos arranjos que a praça tem necessitado, é o grupo de forcados que deita mãos à obra com recurso à prata da casa com a ajuda de um ou outro patrocinador que vai aparecendo. “Pintámos a trincheira toda, substituímos as madeiras, entre outros trabalhos”. Este ano também foram efetuadas obras nas galerias que se encontravam interditas. Em abril foi feita uma vistoria que recebeu aprovação. “Temos orgulho em que a praça fique vistosa”, realça Fábio Beijinho.

A praça vai receber uma corrida em novembro, estando a ser equacionada outra na altura das vindimas. “Vamos fazer também mais algumas brincadeiras abertas ao público”, ao estilo de garraiadas. Este mês de julho foi levada a efeito uma picaria noturna. No que toca aos cartéis, a praça do Cartaxo não tem atualmente condições para trazer grandes nomes da tauromaquia, mas Fábio Beijinho refere que por agora “há que ir com tempo e com calma”. “Gerir uma praça dá muitas dores de cabeça, mas somos novos e com gosto vamos conseguindo”.

Para Pedro Ribeiro, presidente da Câmara, a parceria com o grupo de forcados está a correr bem. Foi transmitido pela anterior gestão que não havia vontade nem interesse em continuar, mas o autarca prefere não escalpelizar outros motivos. O presidente da Camara está consciente da dificuldade do grupo de forcados, que por comparação pode não ter o mesmo poderio de determinados empresários para trazer nomes mais sonantes, mas ainda assim considera que o grupo tem trazido cartéis dignificantes. “A nossa associação tem feito um trabalho extraordinário, e está sempre empenhada em angariar verbas para conseguirem sustentar a sua atividade”.

O presidente da Câmara recusa a falar em eventuais prejuízos neste equipamento que segundo o que apurámos tem despesas a rondar os 30 mil euros por cada corrida. “Estamos a falar de um equipamento público. Obviamente que este tipo de espaços dificilmente pode dar lucro tal como as piscinas e o centro cultural. Se o nosso objetivo fosse o lucro, então só trabalhávamos as coisas para os ricos”. No caso da praça de touros, “tentamos que a sua gestão seja o mais sustentável possível”.


Fonte: Valor Local

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Touros de Morte!


Este texto do professor Luís Vicente foi eliminado da sua cronologia devido a uma denúncia.

Segue o texto: [link]

Hoje um post de uma senhora de Alcochete em defesa das touradas irritou-me o suficiente para lhe responder com o que abaixo transcrevo:

Cara Senhora Mestre em Psicologia Inês Pinto Tavares,

Sabe o que é racismo? Racismo é a senhora ser caucasiana e considerar negros, judeus, palestinianos, asiáticos, etc, seres inferiores. Sendo seres inferiores considerava-se, não há muitos anos, que não tinham alma e, portanto, podiam ser mortos em campos de concentração ou noutros processos genocidas.
A isso chamou-se no século XX, NAZISMO.

Por generalização, o ESPECIÍSMO é uma extensão e um corolário do nazismo. É portanto uma forma de nazismo. É considerar que os outros animais, cães, gatos, porcos, touros, burros, etc. não têm alma e que, portanto, podem ser mortos. É rigorosamente a mesma coisa: NAZISMO, FASCISMO!!!!!

Chamemos as coisas pelo nome!
Pessoas congratularem-se com a tortura pública de um outro animal é um sentimento baixo (no caso que a senhora tanto aprecia, um touro), reles, primitivo, repugnante, NAZI. Nem se trata de matar um ser vivo numa situação de fome para comer, trata-se de torturar e matar por puro prazer. Se a senhora tivesse vivido no século XVI, XVII ou XVIII, certamente que se divertiria com os Autos de Fé no Rossio em que pessoas eram queimadas na fogueira. Talvez tivesse um imenso prazer na matança dos cristãos-novos. Se tivesse vivido na antiga Roma, muito se divertiria com os cristãos lançados aos leões para gáudio da população.

Enfim, estudou Psicologia na universidade onde sou professor, fez um mestrado em Psicologia Comunitária e Protecção de Menores. Provavelmente não aprendeu nada. Foi uma perda de tempo.
Sabe o que são neurotransmissores? Sabe o que é cortisol? Sabe o que é oxitocina? Sabe o que é serotonina? Conhece a anatomia do encéfalo?

Sabe que numa tomografia de emissão de positrões as áreas do encéfalo afectadas pelo sofrimento num touro, num rato, num cão ou num humano são rigorosamente as mesmas?
Sabe que as variações químicas no encéfalo são rigorosamente as mesmas em situações de prazer ou de dor em qualquer dos animais referidos, incluindo os humanos?

Se a senhora aprendeu alguma coisa sobre ciência e método científico o que é que deduz sobre o sofrimento do touro na arena?
Não vale a pena explicar-lhe, pois não?

Também deve pensar que Deus colocou o homem no centro do universo à sua imagem e semelhança logo abaixo dos anjos. Sabe, o meu Deus não é o seu. O meu Deus é infinitamente bondoso e misericordioso. Não pactua com os crimes que tanto prazer lhe dão a si. Não se compadece com pessoas que, da mesma forma que o louva-a-deus, rezam antes de matar.

Quer que eu tenha mais pena de um assassino do que de um touro que é torturado até à morte com requintes de malvadez? Lamento mas não tenho. Entre o assassino e o touro, de caras que escolho o touro.

Divirta-se nas suas touradas, divirta-se nos autos de fé no Rossio, divirta-se na praça da revolução em Paris enquanto cabeças dos guilhotinados rolam para um cesto de serradura, divirta-se nos circos romanos, divirta-se nos fornos crematórios de Auschwitz, divirta-se com a morte e o sofrimento dos outros, seja cúmplice!!!
Tenho a certeza absoluta que a senhora é incapaz, pelas suas limitações cognitivas, de compreender aquilo que estou a escrever. Não é certamente. Por isso perco o meu tempo.

Enfim, só lhe envio esta mensagem porque a senhora me tirou o sono.

Faça o favor de ser feliz com as suas mãos conspurcadas de sangue alheio!"


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Corrida com anões reacendeu debate sobre touradas


"Partidos contornam o assunto nos programas eleitorais, apenas Bloco de Esquerda e o PAN se referem publicamente às touradas.

Na semana passada um movimento pró-tourada de Viana do Castelo cancelou uma corrida com anões por o tribunal ainda não ter decidido a providência cautelar que interpôs para contestar o indeferimento municipal à instalação de uma praça amovível na cidade. Um tribunal de Braga acabaria, também, por não autorizar a construção da praça.

Esta notícia trouxe de volta a polémica em torno da tauromaquia, com algumas vozes a apelarem ao fim da “barbárie da tortura dos animais para gáudio do sadismo público”, como o caso de Vital Moreira.

“Decididamente quando é que, perante a cobarde omissão do legislador, um tribunal tem a coragem de proibir estes espetáculos de degradação humana em nome da proteção constitucional da dignidade humana?”, indagou o ex-eurodeputado do PS, através do blogue Causa Nossa.

Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura, adiantou ao jornal i que o PS não tem uma posição oficial sobre o assunto mas deixou claro que, a título pessoal, é contra as touradas.


Carta Aberta a Gabriela Canavilhas(***)

No entanto recorda que “80% dos portugueses não é a favor da extinção” desta prática e que, portanto, como a “esmagadora maioria dos portugueses está de acordo, não há razão para que seja posta em causa”.

Recorde-se que só o Bloco de Esquerda e o PAN se referem às touradas no programa eleitoral para as legislativas de 4 de outubro. Os outros partidos evitam a polémica."

http://www.noticiasaominuto.com/pais/439916/corrida-com-anoes-reacendeu-debate-sobre-touradas



"Viva la muerte" 
Manuel António Pina

Só nos faltava esta: uma ministra da Cultura para quem divertir-se com o sofrimento e morte de animais é... cultura. Anote-se o seu nome, porque ele ficará nos anais das costas largas que a "cultura" tinha no século XXI em Portugal: Gabriela Canavilhas. É esse o nome que assina o ominoso despacho publicado ontem no DR criando uma "Secção de Tauromaquia" no Conselho Nacional de Cultura. Ninguém se espante se, a seguir, vier uma "Secção de Lutas de Cães" ou mesmo, quem sabe?, uma de "Mutilação Genital Feminina", outras respeitáveis tradições culturais que, como a tauromaquia, há que "dignificar". O património arquitectónico cai aos bocados? A ministra foi ali ao lado "dignificar" as touradas. O património arqueológico degrada-se? Chove nos museus, não há pessoal, visitantes ainda menos? O teatro, o cinema, a dança, morrem à míngua? Os jovens não lêem? As artes estiolam? A ministra foi aos touros e grita "olés" e pede orelhas e sangue no Campo Pequeno. Diz-se que Canavilhas toca piano. Provavelmente também fala Francês. E houve quem tenha julgado que isso basta para se ser ministro da Cultura...

(***)Carta Aberta a Gabriela Canavilhas

MOVIMENTO INTERNACIONAL ANTI-TOURADAS
INTERNATIONAL MOVEMENT AGAINST BULLFIGHTS
MOVIMIENTO INTERNACIONAL ANTITAURINO
MOUVEMENT INTERNATIONAL ANTI CORRIDAS
www.iwab.org
IMAB@iwab.org

Exma. Senhora Deputada,

Aquando das suas declarações, em representação do grupo parlamentar do PS, relativamente à discussão da petição pela Abolição das Corridas deTouros em Portugal, foi proferida por si uma frase que consideramos espantosa. Se a memória não nos engana, a senhora afirmou e passamos a citar: "As touradas não foram instituídas nem por decreto nem por despacho e não devem ser abolidas nem por decreto nem por despacho". Astouradas não foram instituídas por decreto ou por despacho assim comomuitas outras actividades não o foram, no entanto a crer nos historiadores deste país, as touradas mesmo não tendo sido instituídas por decreto ou por despacho foram proíbidas por decretono reinado de D. Maria II.
O decreto do Governo de Passos Manuel (de 19/IX/1836) proibiu "em todo o reino as corridas de touros considerando que são um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas, e bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade".

A história está cheia de costumes/tradições (direito consuetudinário) que não foram instituídos por decretos, mas que foram proíbidos pordecreto/despacho. O que ontem era aceitável mesmo sem lei, hoje não o é e por isso temque ser proíbido ou regulado por lei.
É comum a afirmação que as mulheres são seres mais sensíveis aocontrário dos homens. Não vamos discutir se tal afirmação é ou não veraz, no entanto podemos afirmar que no que a si respeita, a senhora não demonstra qualquer sensibilidade ou empatia quando se trata de outros seres que sofrem tal como nós. A sua frieza e o seu comportamento provam que a senhora não sente o mínimo de compaixão por ninguém. Não se sinta orgulhosa do seu discurso no parlamento porque se os taurófilos o consideram brilhante e já agora nas palavras deles leal, todas as outras pessoas sensíveis e empáticas consideram-no patético e desprezível. A senhora não foi eleita para defender os interesses de uma minoria, neste caso os taurófilos, mas sim para defender os interesses da maioria dos seus eleitores. Será que aqueles que a elegeram defendem touradas? Uma minoria talvez. Mas teria a senhora sido eleita se fosse isso que tivesse para lhes oferecer? Temos a certeza que ninguém a elegiria se soubesse que a senhora iria defender o indefensável.

As suas declarações são falaciosas quando afirma que a tauromaquia não recebe subsídios e é totalmente independente do Estado e são vergonhosas quando fala em liberdade e tolerância. A indústria tauromáquica recebe milhões de subsídios dos organismos públicos destepaís e da UE e não adianta negar. Como exemplo o Governo Regional dos Açores entregou entre 2004 e 2010 mais de 2.700.000,00 milhões de euros a essa mesma indústria. É algo que a senhora deverá saber uma vez que foi entre 2008 e 2009 directora geral da cultura do Governo Regional dos Açores. Quanto à liberdade e tolerância que liberdade minha senhora? A liberdade de uns quantos se regozijarem com a torturade um ser senciente? A tolerância de continuar a permitir um espectáculo que permite a tortura de animais? Minha senhora a sua liberdade e tolerância terminam no momento em que outro ser é impedidode ter a liberdade de não ser torturado.

Todos os animais à face deste planeta, não são objectos dos quais podemos dispôr a nosso beloprazer. Com eles compartilhamos este espaço e para com eles temos deveres e sim eles têm direitos por mais que seres supostamente iluminados como a senhora continuem a negá-los. Têm o direito decoexistir connosco e têm o direito a não ser torturados eposteriormente mortos num espectáculo público degradante.

O seu discurso é de facto leal ao lobby tauromáquico mas é imoral e totalmente desprovido de ética .Nunca é tarde para mudar mas algumas pessoas, como a senhora, persistem em viver no obscurantismo.

Maria Lopes (Coordenadora)
Movimento Internacional Anti-Touradas
www.iwab.org

Testemunho Real!



 Palabras de un técnico de sonido de televisión que hacía las retransmisiones de toros...

"En mi caso, que me ha tocado llevar el sonido en alguna retransmisión, siempre he comentado, que si en lugar de la mezcla de sonido de la banda de música, aplausos, bravos, olessss y demás... el sonido fuera el que capta el Sennheiser 816 (micrófono que capta a gran distancia y buena calidad) a pie de ruedo, donde se escucha perfectamente el sonido de la banderillas al entrar en la piel, los mugidos de dolor que da el animal a cada tortura a la que se somete... y además lo acompañáramos de primeros planos de las heridas que lleva, de los coágulos como la palma de una mano, de la sangre que le brota acompasada al latir del corazón o la mirada que pone en animal antes de que le den la estocada final, creo que el 90% apagaría el televisor al presenciar semejante carnicería a ritmo de pasodoble.

Yo, personalmente pedí el dejar de hacer ese tipo de trabajo, precisamente un día que en Castellón me tocó estar en el callejón y me cabreé mucho al escuchar a un toro, al cual el torero falló cuatro veces con el estoque y harto de escuchar al pobre animal me quité los auriculares... No tuve bastante, que mientras agonizaba, escupía, se ahogaba en su sangre, se vino a morir justo pegado a mi, apoyado sobre las maderas mientras daba pasmos y su mirada ensangrentada y con lágrimas, sí lágrimas, sean o no sean de dolor, se cruzó con la mía y no nos la perdimos hasta que un inútil .... falló dos veces con el descabello, al que le dije de todo.

Ahí acabó mi temporada torera de por vida.

Son sentimientos personales y lo mas probable es que a un amante de "la fiesta" le parezca ridículo, pero para mi, más ridículo es cuando después de semejante carnicería, giras la vista al público y los ves allí aplaudiendo, comiendo su bocata sin inmutarse, ni habiendo visto y oído lo que yo."

Jose Sepúlveda Sepul

"Anonymous Defensa Animal España"
"El técnico de sonido del viral antitaurino: "Es una bestialidad, que lo soporte el que pueda" - El Huffington Post"
"El viral testimonio de un técnico de sonido sobre las corridas de toros - El Huffington Post"
"LA VOZ DE GALICIA"


"La memoria del llanto, un artículo contra los toros del periodista y escritor Francesc González Ledesma, publicado en el diario El País en marzo de 2010."



«Testemunho de um Técnico de Som sobre a Barbárie Tauromáquica

Jose Sepúlveda, técnico de som do Canal Nou e que durante algum tempo trabalhou na transmissão de touradas decidiu relatar aquilo que viu e ouviu durante estas emissões. A imagem inserida no texto é apenas para ilustração do artigo.

Sempre que trabalhei na parte sonora das transmissões frequentemente comentava que se em lugar da banda de música, dos aplausos, dos bravos, dos olés e etc o som fosse captado pelo Sennheiser 816 (microfone que capta a grande distância e com muita qualidade) perto da arena onde se escuta perfeitamente o som das bandarilhas a entrar na pele, os mugidos de dor do animal a cada tortura que é submetido e além disso as pessoas acompanhassem os primeiros planos das feridas, dos coágulos tão grandes com a palma da mão, do sangue que jorra, do bater do coração ou o olhar do animal antes da estocada final 90% desligaria a televisão ao presenciar tamanha chacina ao ritmo de pasodoble.

Eu pessoalmente pedi para deixar de fazer esse tipo de trabalho, porque um dia em Castellón, tocou-me estar entre barreiras e fiquei muito incomodado ao escutar um touro depois do toureiro ter falhado por quatro vezes a estocada e tive que tirar os auscultadores e o animal agonizava, cuspia, afogava-se no seu sangue vindo morrer mesmo ao pé de mim apoiado na madeira e o seu olhar ensanguentado e com lágrimas, sim lágrimas, sejam ou não sejam de dor cruzou-se com o meu até que um inútil falhou duas vezes o descabelo e eu disse-lhe tudo e mais alguma coisa.

Foi aí que terminou o meu trabalho em praças de touros para toda a vida.

São sentimentos pessoais e o mais provável é que um amante da “fiesta” ache ridículo, mas para mim ridículo é quando depois de semelhante carnificina olhas para o público e vês que aplaude, come sandes sem qualquer preocupação não tendo visto nem ouvido o que eu testemunhei”.

Excelente testemunho que retrata a verdade sobre um espectáculo que é brutalmente bárbaro e cruel e que tem que ser erradicado.

Prótouro
Pelos touros em liberdade
https://protouro.wordpress.com/

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

... Para mim acabou!


"A TVE PARA MIM ACABOU

A minha família nāo desgostava de touradas. Não que se babassem por ir ver o Tito Capristano à Moita ou o Nelo Cagarras a Santarém, mas lá em casa, se passava uma Corrida, a malta ficava a ver. Nas férias andaluzes, chegados ao apartamento com sal mediterrânico, o meu Pai punha na TVE e até ao jantar sorvíamos a cantilena espanhola dos comentadores especialistas e 8 ou 10 toiros de morte.

Não éramos aficionados mas gostávamos de ver. Do espectáculo. Da arte do matador. Da faena. Da orquestra. Do tribalismo. Só não podíamos ver os cavaleiros. Gajos de jaqueta brilhante montados num cavalo a espetar farpas que se transformavam em bandeirinhas que acenavam ao público. Degradante. O cavaleiro é o cobarde da tourada, é o puto que insulta e depois foge. Tínhamos, eu e o meu Pai, um sonho: unir a Ibéria numa só tourada: matadores espanhóis, forcados portugueses. Os cavaleiros passariam a alisar a areia, a limpar os estábulos e a dar água aos toiros.

Olho a televisão com o canal público a dar tourada. Aquelas mesmas caras de sempre de olhar bovino. Caras de gente laranja, de bigodes falsamente aristocráticos, as famílias da "tradição", os betos e os que querem passar por betos, as calças caqui, os penteados, as patilhas, uma portugalidade meio bizarra que parece advir de promíscuas relações entre primos e irmãos. Esta gente que ali está atrás das tábuas funde-se com as vacas em noites de Inverno: por isso aquele bovino olhar, a mansidão das carecas reluzentes, a lhaneza.

Pai, eu já não posso continuar a ver isto. Não é fácil questionarmos as coisas que enquanto crescemos eram naturais. Mais difícil quando as víamos junto aos que amamos. O meu Pai gostava de ver e eu via e também gostava porque gostava dele. Vamos continuar a ir aos nossos sítios a que íamos sempre juntos. Vamos a Moledo, a Ceuta, a Sevilha, a Mijas, ao Forte de Peniche, às Caldas do Luiz Pacheco, a Vilarelho ouvir o Maestro Coca-Cola Killer ensinar Bach às gentes do campo, vamos continuar a ir ao Estádio da Luz e a abraçarmo-nos dentro dos golos do Benfica, mas, Pai, a TVE para mim acabou.

Há qualquer coisa de profundamente degradante nas touradas. Não é só o sofrimento do animal, é o espanto com que ele observa os animais da bancada. A incredulidade de estar perante a maldade do mundo. O toiro leva nos olhos uma tristeza de estar assistindo à vileza do humano. Porte imponente, músculos fortes, cornos pontiagudos, nobreza de carácter, mas os olhos. É nos olhos do toiro que nós vemos a sua ingenuidade. Uma criança perdida no meio da multidão.

O animal sorve a vida de forma natural. Passa anos a comer ervinhas, a ver pores-do-sol, a esfocinhar amorosamente com outros animais. Vive a vida em liberdade, em campos abertos de luz, por onde pode correr, parar, dormitar, ficar só a ver. Ficar só a viver. Recebe arco-íris com uma chuvinha que lhe molha a língua e as dentolas, afasta borboletas e mosquitos com um espirro, ressona e acorda os pássaros da árvore onde está encostado. O animal não reflecte sobre o mundo, mas vive-o. Sobretudo, sente-o. Os elementos da natureza são-lhe prazenteiros. É-lhe natural ir beberricar aquela água, comer este molhe de ervas, cagar ou mijar onde lhe apetecer. O céu é-lhe natural, as nuvens e o Sol, os caminhos de terra, as plantas, os passarinhos. Aquela brisa que vem em Agosto com cheiro a cereais. Ele levanta a cabeça, fecha os olhos e sente-a. Não pensa sobre ela, mas sabe-a.

De repente, uma arena! Um cubículo de areia com milhares de pessoas e vozes e urros! De repente, o horror. Chamam-no, assustam-no, dão-lhe palmadas na cabeça, espetam-lhe ferros frios no lombo. Encosta-se às tábuas, sente a madeira, procura um caminho para voltar para o campo. Está cercado. Cornetas, luzes, gritos. Rios de sangue escorrem-lhe pelo corpo. O peso das bandarilhas coloridas enquanto corre. Não entende aquilo, não sabe o porquê. Cansado, ofegante, em pânico, investe contra o carrossel de homens e cavalos que o rodeiam.

Baixa a cabeça, com as patas tenta furar o chão como se pudesse abrir um alçapão que o fizesse cair da arena para um prado onde corresse e lambuzasse as bochechas de outro toiro. Um campo aberto a céu aberto. Sem cornetas, sem pessoas, sem gritos, sem bandarilhas coloridas, sem bigodes quase aristocráticos, sem ferros frios no lombo, sem rios de sangue pelo corpo, sem maldade.
O último sonho do toiro antes de morrer."


por  Ricardo Silveirinha



terça-feira, 28 de julho de 2015

ESPANHA: CINCO CIDADES CANCELAM TOURADAS E OUTRAS SEGUIRÃO ESTE CAMINHO


Os municípios de Corunha, Gandía, Mancor de la Vall, Pinto e Azira decidiram suspender corridas e outros eventos ligados à tauromaquia previstos para esta época, mesmo que eles tivesse já sido contratualizados há dias ou meses.

Segundo o site 20 Minutos, muitos destes eventos tinham sido acordados entre os empresários e as autarquias antes das eleições de Maio. No entanto, muitos dos programas eleitorais previam o cancelamento destes eventos, pelo que os autarcas eleitos estão a cumprir as promessas.

Para além destes cinco municípios, outros dois ponderam seguir o mesmo caminho: Huesca e Alicante. A nova autarca de Madrid, Manuela Carmena, também já avisou que não irá destinar “nem um euro público” para eventos que exploram os animais. Veja a opinião de várias regiões espanholas sobre o tema, 

Galiza

O município da Corunha decidiu na semana passada suspender a Feira Taurina, apesar do pré-contrato assinado com um empresário. O presidente da câmara, Xulio Ferreiro (Marea Atlántica), prometeu durante a campanha eleitoral “não financiar a exploração de touros, nem outros espetáculos de maltrato animal”. A plataforma abolicionista Galicia, Mellor Sen Touradas aplaudiu a medida e destacou que esta decisão pode abrir o debate sobre a possibilidade de impulsionar uma iniciativa legislativa popular sobre a abolição das corridas de touros.

Comunidade Valenciana

É a região onde mais tem aparecido novos municípios anti-touradas. Em Gandía – localidade da Comunidade Valenciana onde não foram realizadas corridas de touros durante 24 anos, até 2012 – as coligações políticas que actualmente governam a região, PSOE e Mes Gandía, decidiram eliminar as festividades taurinas sob os argumentos de que “Gandía é contra o maltrato animal” e porque “é uma despesa que não pode ser assumida actualmente”.

Em Alzira, onde os chamados “bous al carrer” começaram a ser celebrados há sete anos com o apoio do PP (Partido Popular), tais celebrações foram também canceladas pelos novos governantes (Compromís), com o argumento de que a maioria da população não aprova estas práticas na localidade. Além desses, outros municípios valencianos, como L’Horta, Xàtiva e Aldaia planejam realizar referendos sobre a organização de eventos que exploram touros. Em Alicante, por sua vez, o tripartido PSOE, Guanyar e Compromís prevê retirar o apoio financeiro e ajudas públicas à praça de touros, e em 2017 acabarão definitivamente as festividades.

Ilhas Baleares

Mancor del Vall (Maiorca) é, desde o dia 1 de Julho, o povo balear número 18 na lista dos declarados “municípios anti-touradas”, a pedido do novo prefeito, de Mes per Mancor. A capital, Palma de Maiorca, poderá também integrar a lista, debate previsto para o próximo dia 30 de Julho, o primeiro da legislatura. Com o propósito de pressionar as autoridades, a associação “Mallorca sin sangre” (Maiorca sem sangue) convocou uma manifestação para o sábado dia 25 de Julho. A lista de municípios anti-touradas na Espanha abriga actualmente um total de 101 localidades. A primeira a encabeçar a lista foi Tossa del Mar (1989) e a última a juntar-se Ariany (Maiorca), em Janeiro de 2015.

Aragão

O município de Huesca também está susceptível a questionar os seus cidadãos sobre a celebração destas festividades. O presidente da câmara, Luis Felipe (PSOE), disse recentemente que “não proibirá nada”, mas abrirá uma via de diálogo para que as pessoas decidam o modelo de festas que querem para a Feira de São Lourenço. “Se houvesse o não como proposta para o espetáculo de touradas, seriam os cidadãos que decidiriam, pois haveria um referendo para isso”, garantiu.

Comunidade de Madrid

Em Madrid, os vencedores do município de Pinto, Ganemos Pinto, também decidiram deixar de financiar as largadas e corridas de touros. O último plenário municipal foi celebrado no final de Junho. Por sua vez, a presidenta da câmara de Madrid, Manuela Carmena, também planeava, no seu programa de governo, deixar de financiar as touradas. O grupo governamental “Ahora Madrid” renunciou ao seu espaço na plateia da Praça de Touros Las Ventas e não financiará a escola de toureiros. Somos Alcalá optou por sair da comissão de festividades para evitar ter que colocar touros na programação habitual.

Os abolicionistas vêem estes tímidos primeiros passos como um “avanço positivo porque demonstra que os partidos perceberam que há uma necessidade da população de acabar com o drama que vivem os animais nessas festividades”, nas palavras de Amanda Luis, do Pacma. Ela considera que o não financiamento destes eventos ainda não é o suficiente. “Se o que queremos é construir uma sociedade mais justa e ética, os eventos taurinos não só devem deixar de ser subsidiados, como também devem ser proibidos. Ou a tortura deixa de ser humilhante quando é paga com o dinheiro privado?”, disse. A sua proposta passa por uma “proibição, gradual, mas proibição¨, sem deixar de lado outros “maus-tratos a animais como a caça e o abandono de cães”, acrescenta.

greensavers.sapo.pt
via ANDA

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ai os ANTI, esses vândalos! Ou as aldrabices da prótótó?!








Os Aficionados Emprenham Pelos Ouvidos
A “Prótoiro” como de costume mente com quantos dentes tem na boca. A propósito das declarações do Vereador da Câmara Municipal de Évora, João Rodrigues, sobre a tauromaquia, de imediato se apressaram a emitir uma espécie de comunicado onde afirmam que as autarquias não têm poderes para proibir touradas.

Já por várias o dissemos mas voltamos a repetir, as autarquias têm poderes para proibir touradas, porque são as autarquias que têm competência para licenciar ou não espectáculos tauromáquicos em praças ambulantes. Além disso, se uma atarquia for proprietária de uma praça de touros fixa, também tem poderes para não autorizar tais espectáculos, como é o caso de Viana do Castelo que tendo comprado a praça de touros proibiu a realização de touradas.

Mas as aldrabices da “Prótoiro” não se ficam por aqui e no referido comunicado afirmam e citamos:

“Recorde-se que o município de Évora, no final de 2012, integrado na Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, declarou a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial, de acordo com os critérios da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Imaterial, estando, assim, obrigado a preservar e difundir este património no seu concelho”.

Pura mentira, a Câmara Municipal de Évora chumbou em 2012 a declaração da tauromaquia como património cultural imaterial, mais a proposta redigida pela Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, apresentada ao Conselho Intermunicipal da CIMAC no dia 4 de Setembro de 2012, não foi aprovada por unanimidade, como consta da acta de 18 de Outubro do mesmo ano.
Votaram contra e/ou abstiveram-se os municípios de Évora, Montemor-o-Novo e Arraiolos.

Os aficionados emprenham pelos ouvidos e cada vez que a “Prótoiro” mente eles ficam grávidos!

Prótouro
Pelos touros em liberdade



 DIZEM ELES!

Évora: cartazes taurinos vandalizados

Évora acordou esta manhã com vários cartazes taurinos alusivos a corridas que se vão realizar nos próximos dias vandalizados com tarjas (escritas à mão) onde se pode ler "violência", "tortura", "sangue", "crueldade", etc.
Estas fotos foram tiradas pelo cronista taurino (retirado) Miguel Ortega Cláudio e publicadas na sua página do "Facebook" - e demonstram os actos de vandalismo praticados esta noite por anti-taurinos na cidade-museu, depois da polémica que ontem estalou nas redes sociais, onde se chegou a pôr em causa a realização de corridas de toiros em Évora, depois de já terem sido proibidos os circos com animais.
Haja calma, meus senhores: como a Prótoiro bem explicou, nenhuma lei autárquica se pode sobrepor à lei do país. O que aconteceu em Viana do Castelo foi simplesmente uma Câmara Municipal que era proprietária de uma praça de toiros e decretou que não se realizariam mais espectáculos no seu imóvel. Mas já não pôde impedir a realização de corridas de toiros noutros recintos - como tem ocorrido e este ano voltará a ocorrer em Agosto - porque o espectáculo tauromáquico é legal e está consagrado na nossa Constituição.
De qualquer forma e mesmo que não acreditemos em bruxas, a realidade é que elas... existem. E portanto, todo o cuidado é pouco. Vamos responder aos anti-taurinos eborenses enchendo amanhã a praça de toiros de Évora (cartaz ao lado). Seremos capazes de o fazer ou vamos encolher os ombros e deixar andar?...
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Empresa apela: todos a Évora para defender a liberdade!
"Perante os ataques contra as Corridas de Toiros, vindas de forças radicais e desrespeitadoras das liberdades e direitos dos outros cidadãos, temos todos a obrigação de na próxima sexta-feira, dia 10, ir à Corrida a Évora, mostrando a força da aficion e a defesa dos direitos e liberdades dos eborenses e dos portugueses. Vamos aos toiros a Évora, vamos defender a cultura portuguesa, vamos defender a liberdade!" - é o apelo da empresa "Toiros & Tauromaquia", depois das declarações à Rádio Campanário de um vereador do município eborense, que coloca em perigo as corridas de toiros na cidade-museu.
A empresa apela a que marquemos presença, em força, na corrida nocturna desta sexta-feira em Évora  (cartaz ao lado), por forma a mostrarmos a nossa força e a defender a nossa cultura e a nossa tradição.

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Prótoiro desdramatiza perigo em Évora: autarquias não podem proibir corridas de toiros
Através do comunicado que a seguir se transcreve, a Federação Prótoiro veio hoje a público - como se impunha - tranquilizar os aficionados e explicar que as autarquias não têm poder para proibir o que está permitido na lei do país, neste caso, as corridas de toiros. Tudo a propósito de polémicas declarações de um vereador da Câmara de Évora em entrevista à Rádio Campanário, onde admite a possibilidade de, a seguir a terem sido proibidos os circos com a animais, possam também vir a estar em perigo os espectáculos taurinos na cidade-museu:

É impossível a uma autarquia proibir a realização de Corridas de Toiros
Tendo vindo a público uma declaração infeliz de um vereador da Câmara Municipal de Évora, sobre uma hipotética possibilidade de o município poder vir a estudar uma proibição de Corridas de Toiros, a Prótoiro, Federação Portuguesa de Tauromaquia, vem esclarecer o seguinte:
De acordo com as leis de Portugal, é impossível a uma autarquia proibir a realização de Corridas de Toiros, uma vez que as autarquias não têm poderes legais sobre as mesmas. Esta é uma matéria que depende exclusivamente do Estado Central. Esta é uma informação que todos têm de ter muito clara, nesta e em qualquer outra situação similar. Declarações deste género são puras falsidades e declarações de ignorância sobre este tema.
Mesmo que algum município se declare antitaurino, essa declaração não tem nenhum valor ou efeito legal.
Se dúvidas houvesse, basta ver o caso de Viana do Castelo, o único município português que se declarou antitaurino, e onde o autarca usa de todas as estratégias e falsidades para tentar impedir a realização de corridas de toiros, mas foi totalmente incapaz de o fazer, porque não tem poderes legais para tal. Foram, aliás, já várias as decisões judiciais que o confirmaram desde 2011.
Recorde-se que o município de Évora, no final de 2012, integrado na Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, declarou a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial, de acordo com os critérios da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Imaterial, estando, assim, obrigado a preservar e difundir este património no seu concelho.
A muito aficionada população do Concelho de Évora, com grandes pergaminhos taurinos, deve fazer o seu protesto junto da autarquia, exigindo respeito pela liberdade cultural e pela legalidade. Quanto à Protoiro, já estávamos a acompanhar este tema, e estamos no terreno a agir sobre o mesmo, na defesa das liberdades e direitos dos cidadãos.

Prótoiro - Federação Portuguesa de Tauromaquia
https://www.facebook.com/PROTOIRO/photos/a.152331808134547.29215.118555858178809/1011408198893566/?type=1&theater
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Alerta: corridas em perigo em Évora
Depois de terem sido proibidos os circos com animais na cidade de Évora,
a medida pode alastrar ao espectáculo tauromáquico - e ninguém se mexe?...

Depois de terem sido proibidos em Évora os circos com animais, podem agora estar também em perigo as corridas de toiros na cidade-museu - e ninguém faz nada? A Prótoiro cala-se?...
Os circos com animais vão deixar de poder instalar-se em Évora depois de a Assembleia Municipal ter aprovado uma recomendação apresentada pelo Partido Socialista (e querem estes tipos ser governo!...) e que a gestão CDU acatou.
Agora, em declarações à Rádio Campanário, o vereador João Rodrigues (foto ao lado) admitiu que a medida se pode também vir a aplicar aos espectáculos tauromáquicos. "Esta medida poderá alastrar a outros espectáculos com animais, nomeadamente os espectáculos taurinos, é uma questão que ainda não se colocou, sobre a qual a Câmara ainda não tomou nenhuma posição, apenas se pretende cumprir a legislação em vigor".
Recordamos ao vereador de Évora que a legislação em vigor estabelece como perfeitamente legal a realização de corridas de toiros em Portugal. Todavia e como homem prevenido vale por dois, talvez não seja má ideia a Prótoiro e afins começarem a mexer-se, não?
in farpas blog

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As crianças e a tourada: o dever de proteção social


tourada portugal tauromaquia
O Comité dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas, no seu documento CRC/C/PRT/CO/3-4 de 31 de janeiro de 2014, a par de outras problemáticas sociais da realidade portuguesa, expressa, claramente, a sua preocupação com a integridade das crianças envolvidas nos espetáculos tauromáquicos, quer como participantes quer como espectadores.
Reconhecendo o caráter violento da atividade tauromáquica, o Comité incentiva Portugal a tomar as necessárias medidas legislativas e administrativas para proteger a integridade física e psicológica das crianças. Deixa ainda em aberto uma eventual recomendação futura no sentido da proibição total da participação de crianças em touradas. No referido documento, é expressamente recomendado o aumento da idade mínima para participação e assistência a espetáculos tauromáquicos, à altura da elaboração do documento nos 12 e 6 anos, respetivamente. Foi aliás neste seguimento que o governo português aprovou no artigo 27º do Decreto-lei nº 23/2014, de 14 de fevereiro, a subida da idade mínima para assistir a touradas para os 12 anos.
A recomendação do Comité dos Direitos da Criança, bem como a consequente legislação do governo português, vem finalmente atestar inequivocamente que a tourada constitui um espetáculo violento e, como tal, deve estar sujeita às mesmas restrições etárias que outros espetáculos de natureza artística e divertimentos públicos considerados violentos.

Deste modo, torna-se evidente que a recente recomendação do Comité dos Direitos da Criança a Portugal encontra-se solidamente ancorada em evidências científicas.

Enquanto os riscos para a integridade física das crianças que participam ativamente nos espetáculos tauromáquicos são óbvios e inquestionáveis, tendo em conta a estatura e força dos animais envolvidos e a natureza da interação dos mesmos com as crianças intervenientes, os riscos para a sua integridade psíquica, moral e social são menos óbvios, porém não menos negligenciáveis.
Diversos estudos comprovam que a exposição a violência explícita nos media provoca efeitos significativos a curto-prazo, aumentando a probabilidade de originar comportamentos agressivos ou de medo. Este efeito é particularmente preponderante nas crianças mais novas, e em especial, do sexo masculino (para uma revisão, ver Browne & Hamilton, 2005). Ocorre também um efeito de dessensibilização face à violência, podendo esta ser aceite como forma de solução de problemas violentos (Bartholow, Sestir & Davis, 2005) o que, por seu turno, pode contribuir para o aparecimento de comportamentos desviantes (Fitzpatrick, C., Barnett, T. & Pagani, 2012).
Especificamente no respeitante à tourada, um estudo realizado em Madrid com 240 crianças dos 8 aos 12 anos de idade (Graña et. al., 2004)., demonstrou que a maioria das crianças apresentava naturalmente uma atitude negativa face à mesma, expressando reações emocionais negativas quando a ela expostas. O mesmo estudo atesta, ainda, que o facto de a tourada ser apresentada aos menores como um espetáculo cultural, chega a aumentar os efeitos nefastos que tem nos mesmos: as crianças que assistem a touradas sendo sugestionadas para as ver como um espetáculo festivo obtém resultados significativamente mais elevados em escalas de ansiedade e agressividade do que crianças que assistem a uma tourada sem qualquer sugestão.
francisco 10a bencatel 001Os estudos sobre empatia revelam uma correlação positiva entre a capacidade de empatizar com seres humanos e a capacidade de empatizar com animais não-humanos (Signal & Taylor, 2007). Assim, é pertinente pensar que ao ensinar as crianças a ignorar o sofrimento do touro, estamos a potenciar um défice na sua capacidade de empatizar com seres humanos, o que acarreta, necessariamente, consequências psíquicas, morais e sociais. Importa salientar que a empatia não só sustenta a maioria das decisões morais que tomamos (Miller, Hannikainen.& Cushman, 2014) mas também se encontra na base dos comportamentos cooperativos, imprescindíveis para a vida em sociedade (para uma revisão sobre a evolução e papel da empatia ver Castro, Gaspar & Vicente, 2010). Comprovando tal fato, tem sido demonstrado que a promoção de atitudes de respeito e afeto para com os animais não-humanos é benéfica para o bom desenvolvimento das crianças a vários níveis (para uma revisão ver, por exemplo, Endenburg. & van Lith, 2011).
Deste modo, torna-se evidente que a recente recomendação do Comité dos Direitos da Criança a Portugal encontra-se solidamente ancorada em evidências científicas. Como tal, e muito além de quaisquer considerações acerca da legitimidade das atividades tauromáquicas, deve ser claro para todos os seus intervenientes que, no supremo interesse da criança, devem ser célere e claramente transpostas para a legislação portuguesa medidas que a protejam dos possíveis riscos desta atividade.
Dr.ª Constança Carvalho
Psicóloga Clínica, especialista em desenvolvimento infantil
Referências Bibliográficas
  • Bartholow, B., Sestir, M. & Davis,E. (2005) Correlates and consequences of exposure to video game violence: hostile personality, empathy, and aggressive behavior. Pers Soc Psychol Bull. 31(11), pp.1573-86.
  • Browne, K.D. & Hamilton-Giachritsis, C. (2005). The influence of violent media on children and adolescents:a public-health approach. Lancet; 365(9460), pp. 702-10.
  • Castro, R., Gaspar, A., Vicente, L. (2010). The Evolving Empathy: hardwired bases of human and non-human primate empathy. Psicologia, XXIV(2), pp.131-152
  • Endenburg, N. & van Lith, H.A. (2011). The influence of animals on the development of children. Vet J., 190(2), pp.208-14
  • Fitzpatrick, C., Barnett, T. & Pagani L.S. (2012) Early exposure to media violence and later child adjustment. J Dev Behav Pediatr.,33(4), pp. 291-7.
  • Graña, J., Cruzado, J., Andreu, J., Muñoz-Rivas, M., Peña, M. &  Brain, P. (2004). Effects of viewing videos of bullfights on Spanish children. Aggressive Behavior, 30 (1), pp. 16–28.
  • Miller, R., Hannikainen, I.& Cushman, F. (2014). Bad Actions or Bad Outcomes? Differentiating Affective Contributions to the Moral Condemnation of Harm. Emotion. 2014 Feb 10. [Epub ahead of print]
  • Signal, T & Taylor, N (2007). Attitude to Animals and Empathy: Comparing Animal Protection and General Community Samples. Anthrozoos, 20(2), pp. 125-130.



Fonte: Basta.pt